quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Eu eu mesmo e a areia. (Quão original)

Estavam sentados os dois em um pequeno muro cheio de areia, olhando para o mar, com o sol nas suas costas fazendo sombras por culpa dos coqueiros. A areia era branca, a brisa era fresca, o mar parecia um reflexo se quebrando do céu azul acima. O horizonte parecia interminável, intocável.
-Não dá pra ser um cara bom e equilibrado. As pessoas vão mentir pra você, vão te usar, vão te trair. Vão fazer o que querem mais e mais vezes, e quando você perder a sua serventia, já haverá outro, igual ou melhor que você, pronto para ser usado. Se quiser continuar tentando ser santo, vai morrer sozinho.
-Eu não penso assim.
-Nunca pensa. Age por impulso, sempre pondo o coração sobre todas as coisas.
-Não sou mais assim.
-Não, não é. Talvez não seja. Mas se tornou tão racional que mal pensa. Tão frio que não há mais ninguém pra falar. Passou mais de seis meses de sua vida em silêncio. Sem companhia, sem amigos, sem desabafar todos os golpes que recebia.
-Foi melhor assim.
-Mesmo? Quantas lágrimas derramou?
-Nenhuma.
-E isso lhe fez bem? Como se sente por dentro?
-Sem alegria. Sem tristeza.
-A quanto tempo não ouvia música?
-Muito tempo.
-Deixou de ser humano. Uma hora terás de magoar ou amar alguém, pra não continuar secando por dentro.
-Eu não preciso amar alguém pra ser humano.
-O ser humano não consegue viver sozinho, ele definha e morre. Você precisa de contato, de algo pra se agarrar, pra te fazer pensar, deduzir cada movimento, um desafio pra sua cabeça e coração. Uma pessoa a sua altura.
-Ele põe a mão na cabeça sentindo os seus cabelos crespos -
-Eu não preciso de ninguém pra me derrubar, pra me deixar abaixo do chão. Eu não preciso de nada me marcando, arrancando pedaços. Eu não quero tentar todos os dias achar um lar onde eu possa ficar seguro, pois este lugar não existe! –uma lágrima cai, molhando sua camisa- Eu não quero mais ter que ligar pra ninguém pedindo qualquer arrego, ou uma palavra de esperança! Eu posso muito bem ficar sozinho, tantos de vocês já me deixaram! Depois que as pessoas acharam a companhia que precisavam, eu deixei de ter serventia! Por que não me deixa sozinho? Eu não servirei pra você amanhã ou depois, quando achares coisa melhor... Por que não vai embora também?
-Por que eu sou parte de você, Allan. E uma hora alguém aparecerá, e eu deixarei de ter serventia. – Pôs o seu braço direito sobre o ombro dele- Eu não posso deixá-lo sozinho. Nunca.
-Allan enxuga as lágrimas, e olha ao lado, não vendo nada.
– Talvez eu nunca esteja.

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